domingo, 23 de novembro de 2014

BREVE RESENHA. Brasil de todos os santos.

VAIFAS, Ronaldo e SOUZA, Juliana Beatriz. Brasil de todos os santos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

O livro se propõe a analisar brevemente a multiplicidade de santos e crenças presentes no Brasil, desde a chegada dos portugueses, juntamente com as readaptações das manifestações devocionais (principalmente católicas) a partir do contato com diversas culturas. A expressão que dá título ao livro é inspirada na cidade sede do Governo Colonial, Salvador, “berço do primeiro bispado, terra dos primeiros missionários” (p. 09), terra de todos os santos. Santos estes, católicos, mas que envolvidos pelas várias culturas da colonização, traria pluralidade de santos múltiplos.
Os autores utilizam fontes primárias (processos inquisitoriais, relatos de viagens) a partir da bibliografia, com a finalidade de demonstrar os indícios de vivência da religiosidade e suas particularidades, com casos específicos, individuais, os quais muitas vezes não possuíam limites claros e definidos. Dentre as fontes estão os relatos, cartas e demais documentos da Companhia de Jesus, Ordem Religiosa que acompanhou a colonização portuguesa na América.
A presença da Companhia de Jesus, a serviço da Coroa portuguesa, marcou o período colonial no tocante à atuação junto aos indígenas na tentativa de conversão dos mesmos. Como um “Estado dentro do Estado”, a Cia. acumulou um vasto patrimônio. Os jesuítas desmereciam as crenças nativas, chamando os pajés de ‘feiticeiros’. Na tentativa de conversão e obtenção dos sacramentos, como batismo e matrimônio com um só cônjuge, os jesuítas abandonaram o latim e aprenderam o tupi, nascendo assim a língua-geral. As festas indígenas (com bailes, transes e embriaguez) foram chamadas por Nóbrega como santidade. Estas santidades indígenas se espalharam e foram descritas por cronistas e missionários. Eram rituais híbridos, fruto do trabalho missionário e da (re)interpretação da fé cristã pelos indígenas. Estes passaram a usar sementes para fazer rosários, usar fumaça com santos óleos para fazer batismos, multiplicando os santos ‘pelo avesso’ (p. 21).
No século XVIII, o Acotundá foi idolatria negra. Um ritual praticado em Minas Gerais, no qual os negros dançavam e veneravam um boneco. Para a Igreja, uma prática de pouco interesse e preocupação. No entanto, os Calundus, práticas de adivinhações, possessões, curas e batuques, incomodavam a Igreja. Para os autores, essas feitiçarias, ligadas a busca de melhora nas condições de vida, ganharam força pela conivência do baixo clero e pela falta de nitidez entre os limites do permitido e do condenado pela hierarquia. O Santo Ofício foi pouco rigoroso com estes, pois a escravidão ‘protegia’ os africanos.
Já os cristãos-novos, descendentes dos judeus convertidos, que vieram para o Brasil fugindo da Inquisição, foram vistos com preconceito e com suspeitas de manter o judaísmo na clandestinidade, apesar de batizados no catolicismo. A perseguição acabou por deixá-los divididos entre dois mundos: respeitar imagens e ritos católicos; ser fiel secretamente à herança judaica.
            A constatação da religiosidade colonial perpassa pelo desejo expresso de homens e mulheres em aproximar o máximo possível os santos de suas vidas cotidianas, humanizando-os. Sendo então o catolicismo muito mais vivenciado do que conceituado. Adornavam-se as imagens com jóias, capas, roupas, numa relação de afetividade. Tudo era acompanhado pelos santos, inclusive as intimidades amorosas. Eles estavam por toda parte: nos oratórios, capelas, bilhetes, orações, promessas.
            Os leigos mantiveram a crença católica muito através das irmandades religiosas, construindo igrejas, realizando missas, enterramentos, promovendo matrimônios, assistindo os desvalidos, e principalmente, fazendo festas. Eram nas festas, por exemplo, que os negros conseguiam fazer circular a forma como se viam e como viam a cultura que lhes tentavam impor. As ordens religiosas (exceto dos jesuítas) e a Inquisição no Brasil foram muito fracas.
            O catolicismo no Brasil teve plasticidade, marcado pela ‘exterioridade’, com devoção à base de imagens, procissões, espetáculos que incitavam a sensibilidade religiosa. Os efeitos visuais, os ornamentos, a iluminação, a pompa eram sempre reinventados, marcados pela mestiçagem cultural da Colônia.

Os autores chegam a afirmar ser o caráter do catolicismo brasileiro “epidérmico e superficial”, tendo no culto aos santos uma afeição “maior ao externo, à imagem do que a coisa figurada, do que ao espiritual” (p. 50). Contraditoriamente, no final da obra dizem que as festas religiosas podiam exercitar a piedade e serem momentos de transgressão, sem excluir um e outro, ressaltando ainda a “força” da religiosidade popular. Sem fazer uma apologia das devoções populares e a veneração dos vários santos de diferentes maneiras é possível dizer que esses modos diversos de expressar a devoção é sintoma de forte religiosidade, profunda e verdadeiramente sentida, e não, superficial, apenas porque não-oficial. Afinal, dentro da própria divergência constatada na obra, os autores afirmam: “Se a instituição permaneceu frágil (...) não se pode dizer o mesmo de nossa religiosidade. [...] Seja como for, não se poderá negar sua força” (p. 64).

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