sábado, 2 de outubro de 2010

Micro-história: a redução da escala na análise historiográfica

Desde os anos 1970, um novo gênero historiográfico, particularmente italiano, mudou os rumos do fazer história e alterou a escala de observação na pesquisa histórica: a micro-história, basicamente em seu início com os historiadores Carlo Ginzburg, Giovanni Levi e Edoardo Grendi.
A micro-história se propõe a uma redução de escala de análise, uma descrição da “realidade social” mais detalhada e uma maior exploração do objeto de estudo. A redução da escala permitiu, por um lado, que as experiências individuais, concretas e locais ganhassem relevo e relação com o global. Segundo Paul-André Rosental a pretensão da micro-história é “chegar a conclusões historiográficas de alcance geral”, já que o método pretende estabelecer uma rede de relações, articulando o micro e o global. Com múltiplos ângulos de abordagem sobre realidades até mesmo contraditórias pode-se produzir conhecimentos novos, já que se refletem na narrativa do historiador, que passa a descobrir novos contornos aos seus objetos e a perceber as descontinuidades que as mudanças de escala provocam na narração .
O surgimento da micro-história foi, em grande medida, uma reação ao estilo de história produzida até então: econômica, marxista e estruturalista. Ela recebeu influência da historiografia social francesa e do neo-marxismo inglês, indo ao encontro da antropologia, pensando a cultura e a carga simbólica das práticas e representações sociais. Henrique Espada Lima ressaltou que a inflexão em sentido antropológico da história social vinha se consolidado entre os anos setenta e oitenta e acontecia justamente em direção à antropologia cultural e simbólica, influenciando muitos estudos e historiadores. A antropologia simbólica e interpretativa, baseada nas representações, esteve e está próxima da micro-história. Geertz, com seu método de descrição densa demonstrou como observar detalhes e perceber seus significados, aprofundando a análise do objeto, com suas várias possibilidades de interpretação. Essa problemática da linguagem e da representação é, por exemplo, para Grendi, um elemento decisivo para a experiência historiográfica, abrindo a possibilidade de reconstruir uma cultura por meio do inventário das práticas sociais .
A grande proposta dos princípios metodológicos microhistóricos é a redução da escala de observação, de modo a intensificar a exploração do objeto, fazendo assim uma outra leitura do social. Em outras palavras, partir de um indício, um detalhe específico para responder questões gerais e de interesse amplo na sociedade pesquisada. Para Jacques Revel, é o princípio da variação [de escala] que conta, e não a escolha de uma determinada escala, de modo que a dimensão ‘micro’ não seja privilegiada . Simona Cerutti destacou ser a microanálise uma análise processual, que considera os indivíduos como protagonistas de tal modo a reconstituir uma vivência ou uma variedade de experiências nos diferentes campos da vida social. São escolhas dos itinerários individuais, levando em conta as representações que esses mesmos sujeitos escolhiam e davam a si mesmos . Giovanni Levi, ícone da micro-história, destacou que “é por meio de diferenças mínimas nos comportamentos cotidianos que são construídas a complexidade social, as diferenciações locais nas quais se enraízam histórias” .
A micro-história optou por situações vividas, redes de relações, estratégias singulares. Conforme Roger Chartier “cada micro-história pretende reconstruir, a partir de uma situação particular, normal porque excepcional, a maneira como os indivíduos produzem o mundo social, por meio de suas alianças e confrontos, através das dependências que os ligam ou dos conflitos que os opõem” .
Desde seu início, a micro-história possui um duplo caráter, de acordo com Grendi:

“Ela traduz, de um lado, uma atenção continuada às condições teóricas dos procedimentos da pesquisa em história, por analogia com os esquemas operacionais da antropologia social; ela induz portanto uma atenção particular às modalidades da demonstração. Ela está, de outro lado, associada a abordagens e a técnicas que foram elaboradas em outros contextos (...), por exemplo, a atenção dada aos ‘episódios ilustrativos’, aos ‘estudos de caso’, cuja importância analítica é certa mas remete a outras matrizes, a outros paradigmas historiográficos” .

Com Ginzburg, o conhecimento histórico valeu-se de metodologias que valorizam o indiciário, o conjetural, na tentativa de decifrar uma realidade. Esse é o chamado método indiciário. Nessa perspectiva, a imaginação é um esforço e uma necessidade do historiador que se aventura na micro-análise. À técnica de pesquisa combina-se a intuição, a observação minuciosa, a flexibilidade e sensibilidade do historiador. O enfoque de Ginzburg, partia da “análise do episódio e do detalhe significativo” pretendendo “reconstruir um contexto de natureza histórico-cultural inacessível de outra forma” . O próprio Ginzburg em prefácio à edição inglesa de seu O queijo e os Vermes destacou os detalhes que a pesquisa documental e a abordagem micro da vida de Menocchio poderiam revelar: “temos condições de saber quais eram suas leituras e discussões, pensamentos e sentimentos: temores, esperanças, ironias, raivas, desesperos” .
A historiadora Sandra Pesavento sintetisou a micro-história como:

“um método ou estratégia de abordagem do empírico, que implica o uso conjugado de dois procedimentos: redução de escala do recorte realizado pelo historiador no tema, transformado em objeto pela pergunta formulada, e ampliação das possibilidades de interpretação, pela intensificação dos cruzamentos possíveis, intra e extratexto, a serem feitos naquele recorte determinado”

Duas correntes – social e cultural – de análise microhistórica predominaram entre os italianos. Giovanni Levi, mais preocupado com o aspecto social e também econômico, fez aparecer em seus trabalhos s regularidades nos comportamentos coletivos de um determinado grupo social, sem perder a singularidade de cada um . Nas palavras do próprio Levi, “é por meio de diferenças mínimas nos comportamentos cotidianos que são construídas a complexidade social, as diferenciações locais nas quais se enraízam histórias”. Para Levi, a análise minuciosa / micro dá-se, em grande parte, devido à constatação dos perigos de generalização que uma visão global pode causar, a ponto de falsear, iludir e apresentar interpretações simplistas do social . Mesmo assim, Levi admite que nem todo problema histórico ganhe ao ser trabalhado na perspectiva micro e que a escolha da escala de observação implica escolher um instrumento analítico que não é neutro. Em seu artigo sobre consumo antes da Revolução Industrial, destacou a necessidade de mensurar a desigualdade não apenas por uma “oposição estática entre ricos e pobres”, mas por meio de uma avaliação dos níveis de renda de modo como foi percebida pelos atores sociais.
Edoardo Grendi foi outro historiador italiano, ícone da análise micro-analítica, que procurou em seu trabalho articular, segundo Henrique Espada Lima, dois eixos complementares, a saber, sociedade e cultura, apontando para o diálogo entre a história social e a antropologia . Foi Grendi quem introduziu a noção do ‘excepcional normal’, tendo, segundo Pesavento, dois significados: “o do registro só aparentemente excepcional, mas que constitui uma prática vulgar na cotidianidade da vida” ou “de que justamente o excepcional, a transgressão, a marginalidade e o desvio podem dar conta da norma” . Nos estudos de Grendi, “espaço e escala eram temas de fundamental importância”, e ainda as ‘formas de integração’ entre “as diferentes esferas tornava-se central na análise” . Em outras palavras, pode-se dizer que Grendi variava as escalas em suas análises do social, não apenas fazendo a redução dessa análise. Para Grendi havia analogia entre a microanálise histórica e a pesquisa de campo antropológica e o cruzamento de fontes que testemunhavam as relações sociais acabavam sendo fundamentais para essa possibilidade analítica. Os documentos indiretos e/ou excepcionais, deveriam “ser colocado a serviço da compreensão do cotidiano ‘normal’ das relações correntes” . O próprio Grendi observou que a proposição microanalítica ia ao encontro da ‘história vista de baixo’, buscando um sujeito no emaranhado de fontes para a ‘reconstrução do vivido’ .
Levi, Ginzburg e Grendi se aproximaram; no entanto, a micro-história não se constituiu enquanto escola, nem disciplina, mas sim enquanto prática dos historiadores e experiências de pesquisa. Ela reformulou procedimentos e concepções, reduzindo a escala, transformando as representações da sociedade, mais atentos aos indivíduos e suas relações sociais. Em A herança Imaterial, Giovanni Levi buscou, por exemplo, traçar biografias dos habitantes da aldeia Santena para descortinar as estratégias sociais desenvolvidas pelos indivíduos e pelas famílias. Para Levi, “no curso da vida de cada um, de uma maneira cíclica, nascem problemas, incertezas, escolhas, uma política da vida cotidiana que tem seu centro na utilização estratégica das regras sociais” .
São muitas as demonstrações de potencialidades da micro-história a partir de trabalhos de historiadores que consagraram seus estudos, enriquecendo a análise social, “tornando suas variáveis mais numerosas, mais complexas e também mais móveis” . No entanto, é pertinente destacar as críticas realizadas, ou talvez de modo mais pertinente dizer, os riscos a serem enfrentados diante da análise micro, que fazem refletir sobre os cuidados a serem tomados. Sandra Pesavento destacou o cuidado necessário com os indícios para a configuração da narrativa histórica, já que o historiador pode se encontrar diante de ‘elos perdidos’ e lacunas impossíveis de serem preenchidas, logo, haveria impossibilidade de construção de uma inteligibilidade. Outro risco é o excesso interpretativo ao transformar indícios em provas, sem considerar o contexto “exterior à documentação pesquisada” . O historiador Ronaldo Vaifas também destacou o perigo de se transformar um caso extremo ou situação-limite em exemplos típicos, o que seria um caminho de extrema subjetividade, quase ficção . Como disse Pesavento, “só o olhar atento e acurado que vê na contravenção, a norma, ou na declaração da virtude, a existência do pecado” .
Destacados os ricos da perspectiva micro-histórica levada ao extremo, é preciso retomar a interpretação de que nenhuma escala de análise possui um privilégio especial, para dizer, conforme Lepetit, que os fenômenos não são menos ou mais reais, pois de fato não há uma hierarquia .

“A micro-história não rejeitou portanto a história geral, mas introduz a ela, tomando o cuidado de distinguir os níveis de interpretação: o da situação vivida pelos atores, o das imagens e símbolos que eles acionam, conscientemente ou não, para se explicar e se justificar, o das condições históricas da existência dessas pessoas na época em que seus discursos e comportamentos foram observados” .

Estabelecer relações, trabalhar as fontes de maneira intensiva, comparar a documentação, cruzar informações, dados, variar a escala de observação, valorizar as auto-representações, atribuir significados diferentes e teorizar para um mesmo universo cultural – seguindo as contribuições da Antropologia interpretativa - , mostrar o papel das idéias e das sensibilidades individuais e coletivas em suas singularidades. Correndo o risco da simplificação, pode-se dizer que essas, entre tantas outras, têm sido a lição e contribuição da micro-história para os trabalhos e pesquisas que se afirmam no saber histórico contemporâneo.

ROSENTAL, Paul-André. Construir o ‘macro’ pelo ‘micro’: Fredrik Barth e a ‘microstoria’. In: REVEL, Jacques (org.). Jogos de escala. A experiência da microanálise. Rio de Janeiro: EdFGV, 1998, p. 152.
LIMA, Henrique Espada. A micro-história italiana: escalas, indícios e singularidades, p. 206.
GRENDI, Edoardo. Repensar a micro-história. In: REVEL, Jacques. Jogos de escalas, p. 256.
REVEL, Jacques. Micro análise e construção social. In. Jogos de escalas. A experiência da microanálise. Rio de Janeiro: EdFGV, 1998, p. 20.
CERUTTI, Simona. Processo e experiência: indivíduos, grupos e identidades em Turim no século XVII. In. REVEL, Jacques. Jogos de escalas, p. 174.
LEVI, Giovanni. Antes da ‘revolução’ do consumo. In: REVEL, Jacques. Jogos de escalas, p. 205.
CHARTIER, Roger. À beira da falésia. A história entre certezas e inquietudes. Porto Alegre: Edurgs, 20022, p. 95.
GRENDI, Edoardo. Repensar a micro-história? In: REVEL, Jacques. Jogos de escalas, p. 259.
Id. Ibid., p. 208.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os Vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 12.
PESAVENTO, Sandra. O corpo e a alma do mundo. A micro-história e a construção do passado. História Unisinos, vol. 8, n. 10, jul/dez, 2004, p. 180.
Ver em REVEL, Jacques. Microanálise e construção do social, p. 34.
LEVI, Giovanni. Comportamentos, recursos, processos: antes da ‘revolução’ do consumo. In: REVEL, Jacques, p. 203-205.
LIMA, Henrique Espada. A micro-história italiana: escalas, indícios e singularidades, p. 172.
PESAVENTO, Sandra. Op. Cit., p. 182.
LIMA, Henrique Espada. Op. Cit., p. 195.
Id. Ibid., p. 198.
GRENDI, Edoardo. Repensar a micro-história? In: REVEL, Jacques (org.). Jogos de escalas., p. 253.
LEVI, Giovanni. A herança imaterial.
REVEL, Jacques. Microanálise e construção do social, p. 23.
PESAVENTO, Sandra. Esta história que chamam micro. In: Questões de teoria e metodologia da história. Porto Alegre: Edurgs, 2000, p. 228-229.
VAIFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da história. Micro-história. Rio de Janeiro, Campus, 2002, p. 149.
PESAVENTO, Sandra. Esta história...p. 229.
LEPETIT, Bernard. Sobre a escola na história. In: REVEL, Jacques. Jogos de escalas, p. 100.
BENSA, Alban. Da micro-história a uma antropologia crítica. In: REVEL, Jacques. Jogos de escalas, p. 44.

3 comentários:

Marco Aurélio disse...

Boa tarde professor! A micro-história, me faz lembrar os Annales, partindo doponto que os Annales promoveram uma "revolução", frente a escola metódica, indo de encontro a uma história politica e dos eventos, em detrimento de uma história social, voltada para os bastidores dos eventos e não para os protagonistas.A micro-história parece recortar ainda mais essa visão do movimento dos Annale, reduzindo ainda mais a escala de observação do objeto de pesquisa.Estou sendo coerente quando imagino que a micro-história, seria a "revolução" da "revolução"?.

aloha san disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Adorei o texto, porém esse verde dói o olho. Poderia melhorar para uma leitura mais confortável.