domingo, 11 de janeiro de 2009

São Jorge: venerado guerreiro




No Brasil, ele está presente nos altares das igrejas, nos gongás da umbanda, nos nichos domésticos, na fachada de lojas, no interior de oficinas mecânicas.
São Jorge conquistou os corações dos reis portugueses, de seus súditos mais humildes e fez com eles a travessia do Atlântico. É santo oficial do catolicismo.
A veneração ao "santo guerreiro" no Brasil é uma das mais arraigadas heranças portuguesas, pois o culto dos reis de Portugal a São Jorge teve início com a fundação do reino.
O santo foi tomado como intercessor celeste na batalha pela coroa lusitana, que opôs Portugal e Catela. Na batalha de Aljubarrota, em 1385, d. João I avançou sobre os castelhanos gritando: 'Avante, São Jorge, São Jorge avante, que eu sou o rei de Portugal!'. Para celebrar a vitória, o monarca fez de São Jorge o padroeiro do reino, defensor de suas terras e gentes, e deu à fortaleza que havia construído, em Lisboa, o nome de Castelo de São Jorge.
Em 1387 houve a introdução do santo na procissão do Corpo de Deus, a grande responsável pela transformação do mártir numa entidade popular. Realizada em todo o Portugal, a procissão em honra à Eucaristia era a festa mais importante da Igreja local. A passagem de São Jorge era escoltada pelos artesãos que lidavam com ferro e fogo.
A devoção a São Jorge transformou-se numa tradição no além-mar. Em 1549 se fez a primeira procissão do Corpo de Deus na Bahia. Nos séculos XVII e XVIII, os viajantes anotavam suas impressões, achando ridícula a figura de São Jorge sobre um cavalo nas festas religiosas coloniais.
O santo saía na procissão baiana sobre um cavalo ricamente adornado, escoltado por seu pajem, por seu alferes, ‘o popular homem de ferro’, e por cavalariços vistosamente trajados. Em Minas Gerais do século XVIII, à véspera da procissão, os criados de São Jorge saíam à noite vestidos de capa e calção vermelhos, rufando tambores, anunciando o cortejo pelas ruas, com pompa, ao som de banda e estouro de fogos.
A figura de São Jorge desfilava com armadura, escudo, elmo com ornamentos dourados e capa de veludo bordada a ouro.
Se São Jorge supria a demanda dos reis e dos exércitos, ajudando-os na glória e nas conquistas, no meio do povo logo se tornou advogado das causas cotidianas, com a ajuda dos orixás. No Brasil, assumiu desafios como os de Ogum e os de Oxossi nos cultos afro-brasileiros. Foi o processo cultural de identificação e associação que caracterizou o sincretismo religioso.
Santos e orixás se aproximavam, como intermediários entre os homens e o Criador, ou, em outras palavras, entre homens e Olorum.
O combate entre o santo e o dragão circulava nas imagens votivas.

São Jorge sincretizou com Ogum nas casas de santo do Recife, de Porto Alegre e do Rio de Janeiro. Ogum, rei ioruba que inventava suas próprias armas e ferramentas, guerreiro invencível, em sua dança agitando a espada como se fosse golpear um inimigo ou abrir os caminhos. Reza a tradição que ele o fez: ensinou os homens a dominar o fogo e a fabricar os utensílios de ferro.
Como eram reprimidos pela Igreja e até mesmo pela polícia, os cultos afro-brasileiros encontraram na devoção aos santos um abrigo.
A devoção à São Jorge é muito popular até os dias de hoje. Seu dia é 23 de abril. Presente no imaginário popular, o santo encontrou defensores devotos e poetas. Caetano Veloso compôs Lua de São Jorge e Mário Quintana perguntava-se: ‘que culpa tem ele de ser tão belo e ecumênico?’



(Texto extraído e adapatado de: SANTOS, Georgina Silva dos. "Venerado guerreiro". In: Nossa História. ano 1, n. 7. Biblioteca Nacional (ed.). São Paulo: Vera Cruz, 2004. pp. 14-20).

Um comentário:

clá disse...

Oi Mauro, tu já deu uma olhada no Cavaleiro Trácio? Tens em mãos infinitas possibilidades, em termos iconográficos e iconológicos...

Abs.
Clarissa Wetzel