segunda-feira, 17 de novembro de 2008

100 anos de Umbanda. Comemoração em São Leopoldo

Uma religião brasileira, híbrida, mestiça como o povo, a Umbanda é resultado do encontro de tradições religiosas diversas, como a indígena brasileira, o espírita francês e a ancestralidade africana, e é hoje muito identificada com a matriz afro-brasileira. No entanto, ainda é alvo de discriminação e preconceito de muitos.
Surgida em 1908, no Rio de Janeiro, a Umbanda completa seus 100 anos com muito orgulho. Prova disso foram as comemorações em diversas cidades brasileiras, mas nem sempre devidamente reconhecidas, divulgadas e veiculadas pela mídia.
Em São Leopoldo, houve uma bonita programação no dia 15 de novembro, sábado. Ao lado da Câmara de Vereadores, os umbandistas se concentraram, mostraram um simbólico congá, ouviram o hino da Umbanda, fizeram pronunciamentos... À tarde, uma passeata pela principal rua da cidade.
Ao montarem o Congá, os umbandistas abriram mão de uma entidade importante do seu panteão (entre suas falanges e legiões), o Exu, justamente aquele que vem primeiro no culto, responsável pela comunicação, pelos caminhos, pela rua. Por que a exclusão do Exu? Porque a população não estaria ‘preparada’ para apreciar tal imagem, ainda associada - no imaginário daqueles que desconhecem e julgam - como um ‘satã’ cristão. Os organizadores tentaram evitar, assim, qualquer manifestação de discriminação e pré-conceito ainda tão predominantes em nossa sociedade. Lamentável!
No entanto, nada apagou o brilho da comemoração. Eis algumas fotografias:



















quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Irmandades religiosas no Brasil

As irmandades eram associações do meio urbano, organizadas por leigos católicos, fiéis que se dedicavam ao culto a um padroeiro, podendo ser um santo ou uma invocação à Virgem e a Jesus. Possuíam objetivos de ajuda mútua e praticavam obras de caridade. Os leigos que formavam as irmandades eram pessoas não ligadas ao clero, por exemplo, não eram jesuítas. As irmandades construíam suas próprias igrejas ou dividiam espaço em altares laterais com outras irmandades. O maior compromisso das irmandades com seus sócios era oferecer um funeral digno.
As irmandades davam importância as categorias raciais e sociais, e tinham um caráter étnico. Existiam irmandades só dos homens brancos de elite, como a do Santíssimo Sacramento, e havia aquelas só de escravos, como a Irmandade Nossa Senhora do Rosário.
Os principais hospitais eram construídos e administrados pela importante irmandade branca: Santa Casa de Misericórdia.

As irmandades religiosas ofereciam às pessoas que fosses seus membros benefícios espirituais e materiais. Os benefícios espirituais eram as missas e rezas pelos irmãos mortos e vivos, missas para a salvação das almas, “proteção” do santo padroeiro, acompanhamento em grande estilo ao enterro, procissões, etc. Os benefícios materiais eram o auxílio para a doença ou enterro (caixão, mortalha), atendimento médico e remédios, oferecimento de catacumbas, auxílio para educação de órfãos, ajuda aos que caíssem na miséria ou mesmo na prisão, etc.
Os escravos e os pobres associavam-se à irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Com isso os escravos e forros conseguiam um status social, apesar da escravidão. Os negros buscavam proteção contra os rigores da escravidão. Muitas vezes, as irmandades do Rosário, juntavam dinheiro e ajudavam os escravos a conseguir a liberdade, embora existam poucos casos registrados.
Todos os anos, as irmandades organizavam festividades ao santo de devoção. Nessas festas, as irmandades promoviam procissões, quermesses, badaladas de sinos, decoração das ruas e igrejas. Saíam pelas ruas das cidades acompanhadas de seus membros, muitas vezes com bandas de música, tochas e muitos fogos de artifício. Homens e mulheres, alegres, faziam suas preces. Era um carnaval de fé.
As festividades das irmandades revelavam a riqueza da sociedade, mas também as desigualdades. O luxo das igrejas contrastava com a extrema pobreza das casas do povo, que preferia doar tudo para a irmandade ou para a igreja.
Para os escravos, a festa era um dia de interrupção do trabalho forçado. Permitia aliviar os sofrimentos do cativeiro e encontrar seus semelhantes. Os escravos aproveitavam para expressar sua cultura, promovendo batuques e danças de tradição africana.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

RACISMO NO BRASIL

É engraçado como o brasileiro se especializou em esconder seu racismo. No Brasil ninguém admite ser racista, mas todo mundo conhece alguém que é:
ONDE ESTÁ O RACISMO?
- Escuta aqui, ó criolo…
- O que foi?
- Você andou dizendo por aí que no Brasil existe racismo.
- E não existe?
- Isso é negrice sua. E eu que sempre te considerei um negro de alma branca… É, não adianta. Negro quando não faz na entrada…
- Mas aqui existe racismo.
- Existe nada. Vocês têm toda a liberdade, têm tudo o que gostam. Têm carnaval, têm futebol, têm melancia… E emprego é o que não falta. Lá em casa, por exemplo, estão precisando de empregada. Pra ser lixeiro, pra abrir buraco, ninguém se habilita.
Agora, pra uma cachacinha e um baile estão sempre prontos. Raça de safados! E ainda se queixam!
- Eu insisto, aqui tem racismo.
- Então prova, Beiçola. Prova. Eu alguma vez te virei a cara? Naquela vez que te encontrei conversando com a minha irmã, não te pedi com toda a educação que não aparecesse mais na nossa rua? Hein, tição? Quem apanhou de toda a família foi a minha irmã. Vais dizer que nós temos preconceito contra negro?
- Não, mas…
- Eu expliquei lá em casa que você não fez por mal, que não tinha confundido a menina com alguma empregada de cabelo ruim, não, que foi só um engano porque negro é burro mesmo. Fui teu amigão. Isso é racismo?
- Eu sei, mas…
- Onde é que está o racismo, então? Fala, Macaco.
- É que outro dia eu quis entrar de sócio num clube e não me deixaram.
- Bom, mas pera um pouquinho. Aí também já é demais. Vocês não têm clubes de vocês? Vão querer entrar nos nossos também? Pera um pouquinho.
- Mas isso é racismo.
- Racismo coisa nenhuma! Racismo é quando a gente faz diferença entre as pessoas por causa da cor da pele, como nos Estados Unidos. É uma coisa completamente diferente. Nós estamos falando do crioléu começar a freqüentar clube de branco, assim sem mais nem menos. Nadar na mesma piscina e tudo.
- Sim, mas…
- Não senhor. Eu, por acaso, quero entrar nos clubes de vocês? Deus me livre.
- Pois é, mas…
- Não, tem paciência. Eu não faço diferença entre negro e branco, pra mim é tudo igual. Agora, eles lá e eu aqui. Quer dizer, há um limite.
- Pois então. O …
- Você precisa aprender qual é o seu lugar, só isso.
- Mas…
- E digo mais. É por isso que não existe racismo no Brasil. Porque aqui o negro conhece o lugar dele.
- É, mas…
- E enquanto o negro conhecer o lugar dele, nunca vai haver racismo no Brasil. Está entendendo? Nunca. Aqui existe o diálogo.
- Sim, mas…
- E agora chega, você está ficando impertinente. Bate um samba aí que é isso que tu faz bem.

Luís Fernando Veríssimo