domingo, 14 de dezembro de 2008

As promessas de Obama

A lista de 10 promessas de campanha indica temas globais e que marcam diferenças nítidas com a gestão Bush:
1. Reduzir as emissões de carbono dos EUA em até 80% até 2050 e ter um papel mais forte e positivo na negociação do tratado global que irá dar continuidade ao Protocolo de Quioto
2. Retirar todas as tropas do Iraque dentro de 16 meses e não manter nenhuma base permanente no país
3. Estabelecer uma meta clara para eliminar todo o armamento nuclear do planeta
4. Fechar o presídio de Guantánamo
5. Dobrar o apoio financeiro para reduzir pela metade a extrema pobreza até 2050 e contribuir para a luta contra o HIV/AIDS, a tuberculose e a malária
6. Abrir um diálogo diplomático com países como o Irã e a Síria para buscar uma solução pacífica para tensões políticas
7. Desmilitarizar o serviço norte-americano de inteligência para evitar o tipo de manipulação que gerou a guerra no Iraque
8. Lançar um grande esforço diplomático para cessar a matança em Darfur
9. Somente negociar novos tratados comerciais que contenham proteções trabalhistas e ambientais para os países envolvidos
10. Investir USD $ 150 bilhões nos próximos 10 anos em energias renováveis e colocar 1 milhão de carros elétricos nas ruas até 2015

(RICCI, Rudá. A América de Obama. Revista Espaço Acadêmico. www.espacoacademico.com.br)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

100 anos de Umbanda. Comemoração em São Leopoldo

Uma religião brasileira, híbrida, mestiça como o povo, a Umbanda é resultado do encontro de tradições religiosas diversas, como a indígena brasileira, o espírita francês e a ancestralidade africana, e é hoje muito identificada com a matriz afro-brasileira. No entanto, ainda é alvo de discriminação e preconceito de muitos.
Surgida em 1908, no Rio de Janeiro, a Umbanda completa seus 100 anos com muito orgulho. Prova disso foram as comemorações em diversas cidades brasileiras, mas nem sempre devidamente reconhecidas, divulgadas e veiculadas pela mídia.
Em São Leopoldo, houve uma bonita programação no dia 15 de novembro, sábado. Ao lado da Câmara de Vereadores, os umbandistas se concentraram, mostraram um simbólico congá, ouviram o hino da Umbanda, fizeram pronunciamentos... À tarde, uma passeata pela principal rua da cidade.
Ao montarem o Congá, os umbandistas abriram mão de uma entidade importante do seu panteão (entre suas falanges e legiões), o Exu, justamente aquele que vem primeiro no culto, responsável pela comunicação, pelos caminhos, pela rua. Por que a exclusão do Exu? Porque a população não estaria ‘preparada’ para apreciar tal imagem, ainda associada - no imaginário daqueles que desconhecem e julgam - como um ‘satã’ cristão. Os organizadores tentaram evitar, assim, qualquer manifestação de discriminação e pré-conceito ainda tão predominantes em nossa sociedade. Lamentável!
No entanto, nada apagou o brilho da comemoração. Eis algumas fotografias:



















quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Irmandades religiosas no Brasil

As irmandades eram associações do meio urbano, organizadas por leigos católicos, fiéis que se dedicavam ao culto a um padroeiro, podendo ser um santo ou uma invocação à Virgem e a Jesus. Possuíam objetivos de ajuda mútua e praticavam obras de caridade. Os leigos que formavam as irmandades eram pessoas não ligadas ao clero, por exemplo, não eram jesuítas. As irmandades construíam suas próprias igrejas ou dividiam espaço em altares laterais com outras irmandades. O maior compromisso das irmandades com seus sócios era oferecer um funeral digno.
As irmandades davam importância as categorias raciais e sociais, e tinham um caráter étnico. Existiam irmandades só dos homens brancos de elite, como a do Santíssimo Sacramento, e havia aquelas só de escravos, como a Irmandade Nossa Senhora do Rosário.
Os principais hospitais eram construídos e administrados pela importante irmandade branca: Santa Casa de Misericórdia.

As irmandades religiosas ofereciam às pessoas que fosses seus membros benefícios espirituais e materiais. Os benefícios espirituais eram as missas e rezas pelos irmãos mortos e vivos, missas para a salvação das almas, “proteção” do santo padroeiro, acompanhamento em grande estilo ao enterro, procissões, etc. Os benefícios materiais eram o auxílio para a doença ou enterro (caixão, mortalha), atendimento médico e remédios, oferecimento de catacumbas, auxílio para educação de órfãos, ajuda aos que caíssem na miséria ou mesmo na prisão, etc.
Os escravos e os pobres associavam-se à irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Com isso os escravos e forros conseguiam um status social, apesar da escravidão. Os negros buscavam proteção contra os rigores da escravidão. Muitas vezes, as irmandades do Rosário, juntavam dinheiro e ajudavam os escravos a conseguir a liberdade, embora existam poucos casos registrados.
Todos os anos, as irmandades organizavam festividades ao santo de devoção. Nessas festas, as irmandades promoviam procissões, quermesses, badaladas de sinos, decoração das ruas e igrejas. Saíam pelas ruas das cidades acompanhadas de seus membros, muitas vezes com bandas de música, tochas e muitos fogos de artifício. Homens e mulheres, alegres, faziam suas preces. Era um carnaval de fé.
As festividades das irmandades revelavam a riqueza da sociedade, mas também as desigualdades. O luxo das igrejas contrastava com a extrema pobreza das casas do povo, que preferia doar tudo para a irmandade ou para a igreja.
Para os escravos, a festa era um dia de interrupção do trabalho forçado. Permitia aliviar os sofrimentos do cativeiro e encontrar seus semelhantes. Os escravos aproveitavam para expressar sua cultura, promovendo batuques e danças de tradição africana.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

RACISMO NO BRASIL

É engraçado como o brasileiro se especializou em esconder seu racismo. No Brasil ninguém admite ser racista, mas todo mundo conhece alguém que é:
ONDE ESTÁ O RACISMO?
- Escuta aqui, ó criolo…
- O que foi?
- Você andou dizendo por aí que no Brasil existe racismo.
- E não existe?
- Isso é negrice sua. E eu que sempre te considerei um negro de alma branca… É, não adianta. Negro quando não faz na entrada…
- Mas aqui existe racismo.
- Existe nada. Vocês têm toda a liberdade, têm tudo o que gostam. Têm carnaval, têm futebol, têm melancia… E emprego é o que não falta. Lá em casa, por exemplo, estão precisando de empregada. Pra ser lixeiro, pra abrir buraco, ninguém se habilita.
Agora, pra uma cachacinha e um baile estão sempre prontos. Raça de safados! E ainda se queixam!
- Eu insisto, aqui tem racismo.
- Então prova, Beiçola. Prova. Eu alguma vez te virei a cara? Naquela vez que te encontrei conversando com a minha irmã, não te pedi com toda a educação que não aparecesse mais na nossa rua? Hein, tição? Quem apanhou de toda a família foi a minha irmã. Vais dizer que nós temos preconceito contra negro?
- Não, mas…
- Eu expliquei lá em casa que você não fez por mal, que não tinha confundido a menina com alguma empregada de cabelo ruim, não, que foi só um engano porque negro é burro mesmo. Fui teu amigão. Isso é racismo?
- Eu sei, mas…
- Onde é que está o racismo, então? Fala, Macaco.
- É que outro dia eu quis entrar de sócio num clube e não me deixaram.
- Bom, mas pera um pouquinho. Aí também já é demais. Vocês não têm clubes de vocês? Vão querer entrar nos nossos também? Pera um pouquinho.
- Mas isso é racismo.
- Racismo coisa nenhuma! Racismo é quando a gente faz diferença entre as pessoas por causa da cor da pele, como nos Estados Unidos. É uma coisa completamente diferente. Nós estamos falando do crioléu começar a freqüentar clube de branco, assim sem mais nem menos. Nadar na mesma piscina e tudo.
- Sim, mas…
- Não senhor. Eu, por acaso, quero entrar nos clubes de vocês? Deus me livre.
- Pois é, mas…
- Não, tem paciência. Eu não faço diferença entre negro e branco, pra mim é tudo igual. Agora, eles lá e eu aqui. Quer dizer, há um limite.
- Pois então. O …
- Você precisa aprender qual é o seu lugar, só isso.
- Mas…
- E digo mais. É por isso que não existe racismo no Brasil. Porque aqui o negro conhece o lugar dele.
- É, mas…
- E enquanto o negro conhecer o lugar dele, nunca vai haver racismo no Brasil. Está entendendo? Nunca. Aqui existe o diálogo.
- Sim, mas…
- E agora chega, você está ficando impertinente. Bate um samba aí que é isso que tu faz bem.

Luís Fernando Veríssimo

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Poemas aos Homens do nosso Tempo

Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa rapacidade
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.

Hilda Hilst

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A difícil contrução da Identidade Nacional


A independência do Brasil, em 1822, foi feita pela elite nacional, numa negociação com a Coroa e a Inglaterra. A partir daí, a nação começou a buscar uma definição. Mas apenas a língua e a religião eram fatores comuns no imenso território brasileiro. Faltava um identidade nacional. As pessoas foram definidas como 'brasileiras', numa cidadania muito excludente e, à maneira antiga, a identidade do brasileiro passou a ser a de súdito do imperador. Do mesmo modo, quando da formação dos Estados Nacionais europeus, a população se referia ao seus Estados como 'pertença', como súditos do rei. No Brasil do XIX não havia escolas, não havia cultura escrita, havia, sim, escravidão. A tradição agrária continuou, a ideologia conservadora somada ao voto censitário reforçavam as desigualdades.
Quando da Proclamação da República, a diversidade de estados foi enfatizada, mas o Estado era oligárquico, elitizado.
Apenas após a Revolução de 1930 e até o Estado Novo, o Brasil adota uma política de massa, nacionalista, com Getúlio Vargas. A escola, tendo o português como língua oficial, para a ser o elemento de criação de indentidade. Há uma certa homogeneidade cultural e a difusão de símbolos nacionais. Essa homogeneização, porém, é parcial, porque boa parte da população continuava analfabeta.
Após 1946 há um retorno parcial às diferenças regionais (abafadas pelo Estado Novo), com bandeiras e hinos.
No Regime Militar houve um reforço das características de fundo homogêneo, da unidade nacional, a partir de políticas estratégicas, como as comunicações de massa e seu controel, a criação de um rede de comunicação, a TV Globo, com seu Jornal Nacional e a novela das '20h' para todo o Brasil. Os jornalistas criaram o 'sotaque padrão' para o país.
Até a década de 1970 se as pessoas compartilhavam valores, então, elas faziam parte da sociedade. Houve questionamento desta visão. Mostrou-se que a identidade não é fixa, que as pessoas podem se identificar com diferentes coisas e suas escolhas estão dentro de um contexto, de uma situação com fluidez, que mudam com o tempo, pois existem conflitos.
Atualmente, muito falta à nação, pois se nação não é apenas a organização política de um Estado mas também a relação entre a população e o Estado incluindo direitos e deveres, pode-se dizer que uma identidade nacional ainda não foi plenamente construída e só o será de modo mais favorável quando houver um equilíbrio entre os privilégios de poucos e a fome de muitos.

domingo, 16 de março de 2008

Neo-racismo: as cotas raciais no Brasil

O Projeto de Lei das Cotas Raciais (73/1999) reserva vagas para “negros” em concursos públicos, entre eles e os mais polêmicos, nos vestibulares do Brasil. Esta lei propõe a divisão da sociedade brasileira entre “brancos” e “negros” e cria benefício como uma forma de “compensação” social a estes últimos. Dividindo o país e obrigando pessoas a se declararem “brancas” ou “negras”, as cotas criam um novo racismo através de um outro modo de discriminação ao desconsiderar que a sociedade brasileira é historicamente mestiça e também ao ferir a Constituição federal quanto ao direito de cidadania para todos, independente da cor da pele.
Em primeiro lugar, não é certo falar em “cota racial” simplesmente porque a ciência já provou que “raça” não existe! As diferenças entre os seres humanos são superficiais (pele, cabelo, rosto), sendo que biologicamente não existem categorias raciais. Os racistas do século XIX criaram o termo “raça” para justificarem sua dominação sobre os negros e se sentirem superiores. Hoje sabemos que a humanidade não está dividida em “raças”. Fala-se em culturas, em etnias (características físicas e culturais).
Sendo a sociedade brasileira mestiça, é difícil saber e dizer quem é branco e quem é negro. O país não está dividido apenas em duas cores de pele, cada pessoa pode se identificar como quiser: brancos, mulatos, ‘pardos’, índios, caboclos, negros ou mestiços. Além disso, a sociedade foi formada por diferentes culturas: portuguesa, indígena, africana (de várias procedências, pois a África é um enorme continente, e as características físicas e culturais não eram e não são homogêneas), alemães, italianos, espanhóis, japoneses, etc.
O preconceito contra o negro no Brasil existe, é um fato e não se pode negar: é fruto de uma mentalidade racista que ainda não desvinculou completamente a antiga identificação entre “ser negro” e “ser escravo”. Pensamento, aliás, que era generalizado e aceito por todos no Brasil, pois todos estavam imersos na sociedade escravista. Mesmo negros libertos faziam o possível para possuir escravos. Por outro lado, a exclusão social do negro não se deve a cor da pele, mas a falta de políticas públicas inclusivas que historicamente não acompanharam o pós-abolição. A pobreza e falta de oportunidades não pode ser explicada pelo racismo.
Sabe-se que o problema do Brasil ainda é o preconceito contra os pobres, independente de uma categoria “racialmente” definida. Uma nova discriminação é criada quando se estipula quem não pode concorrer com as cotas. E, considerando que todo o povo brasileiro possuí em suas veias o sangue africano, todos podem se declarar “afro-brasileiros”.
É preciso combater o racismo através da superação da crença – criada no século XIX – em raças humanas, que traz à tona e legitima o racismo dos tempos coloniais, quando havia dicotomia entre senhores brancos, de um lado, e escravos negros, de outro. As cotas são excludentes, pois fabricam duas “cores” ao país e negam os diferentes tons de pele dos brasileiros; criam um Neo-racismo ao tentar particularizar em termos “raciais” a sociedade arquitetada sob múltiplas culturas. Encarar o problema de frente, na verdade, implica soluções reais para a sociedade e investimentos estruturais, tais como: educação básica, salário digno, vida descente, saúde de qualidade, condições de moradia, distribuição de terras e riquezas. A cidadania plena nunca será alcançada com a perigosa política de cotas raciais.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Religião no Império do Brasil

No Império do Brasil, a nação independente através da Constituição de 1824, manteve o catolicismo como religião oficial e a Igreja Católica dependente do Estado, embora permitisse liberdade de culto doméstico ou particular. Oficialmente o país proclamava-se católico, mas na prática, quase sempre, as expressões de religiosidade e fé estavam à margem das práticas e dos dogmas oficiais da Igreja. Veneravam-se santos, Jesus e imagens de Nossa Senhora de maneira familiar e informal. A intimidade do brasileiro com o sagrado estava distanciada das pregações oficiais e inclusive o clero pouco se distinguia dos fiéis leigos, atuando na política, realizando práticas comerciais e estabelecendo relações amorosas. Nas cidades, as condições de culto e das paróquias eram precárias. E, embora a partir de 1860, a Igreja reforçasse a autoridade do papa, o controle do clero e a tentativa de reformar a fé através da depuração e da instrução religiosa, na prática, a religiosidade vivenciada continuou a integrar o cotidiano das pessoas ao modo colonial e tradicional, a partir de uma sensibilidade íntima e pessoal, próxima da magia e longe dos sacramentos católicos.