sábado, 20 de outubro de 2007

Religiões afro-brasileiras – algumas considerações


No passado escravista brasileiro, as práticas religiosas africanas eram quase sempre clandestinas e de natureza secreta. A Igreja Católica, interessada em desqualificá-la, a categorizou como “feitiçaria”. Além disso, foi considerada perigosa e por isso, objeto de repressão policial. No imaginário dos brancos, os negros eram associados à noite e por sua vez, a noite designava fantasmas, roubos e malefícios. No século XIX, as manifestações religiosas dos negros eram encaradas pela Igreja como tolices barulhentas, práticas pagãs que aviltavam a dignidade católica e as novas atitudes em relação ao progresso.
Na verdade, nas suas raízes, a religião africana cultuava seres ancestrais e espíritos da natureza. Como no Brasil os negros escravizados eram obrigados a conviver com santos católicos acabaram reinterpretando-os, fazendo da religião um exemplo claro de mistura cultural, de hibridização de culturas. Nas práticas do Candomblé, ao cultuar os santos católicos, os africanos estariam cultuando seus próprios santos, com outros nomes. Ou seja, os cultos trazidos pelos africanos deram origem a uma variedade de manifestações que aqui encontraram conformações específicas, resultantes do contato com as religiões católica, indígena e com a doutrina espírita.
A umbanda e o candomblé são as mais conhecidas e das mais importantes expressões da religiosidade afro-brasileira. O candomblé cultua os orixás, deuses das nações africanas de língua iorubá dotados de sentimentos humanos e oriundos das quatro forças da natureza: terra, fogo, água e ar. Nos templos, as cerimônias são marcadas por cantos e ritmo de atabaques (tambores), que variam segundo orixá homenageado. Já a umbanda é tipicamente brasileira, nasceu no século XX, no Rio de Janeiro, fruto de uma mistura de crenças. Ela considera que entidades espirituais, os guias (caboclos, pretos velhos), entram em contato com os homens através de médius que os incorporam.
Como até meados do século XIX entraram negros africanos no Brasil, a constituição sólida das religiosidades afro-brasileiras são fenômenos recentes. Além disso, se formaram em diferentes áreas do Brasil com diferentes ritos e nomes locais derivados de tradições africanas diversas: candomblé na Bahia, xangô em Pernambuco e Alagoas, tambor de mina no Maranhão e Pará, batuque no Rio Grande do Sul e macumba no Rio de Janeiro.
É inegável que hoje todo o Brasil conhece pelo menos de nome, divindades como Iemanjá, Oxalá, Ogum. A influência africana na cultura brasileira é evidente e não pode ser negada. As religiões afro-brasileiras há tempos deixaram de ser consideradas religiões exclusivas dos segmentos negros, passando a ser religiões de todos.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Trabalho e Globalização


Nestes tempos de globalização, trabalho com direitos garantidos em lei e carteira assinada quase não existe ou está em extinção no nosso país. São os cruéis efeitos da globalização, das mudanças no mundo do trabalho, das políticas governamentais e do momento de transformações em que vivemos.
Primeiro foram as mudanças tecnológicas, que desde o final do século XX começaram, no Brasil, a substituir o homem pela máquina, mais eficaz e produtiva. Na era da informação, da comunicação e da automação, computadores, internet, maquinários e robôs eliminaram campos de trabalho, substituindo mão-de-obra por um simples clique no mouse ou em um botão do controle remoto, prático e econômico.
Depois, a expansão das grandes empresas que passaram a se instalar em vários países sob o tratado da integração dos mercados mundiais, as chamadas multinacionais. Ao invés de uma grande fábrica com milhares de funcionários, cada vez mais fábricas pequenas e esparramadas pelo mundo em busca de maiores lucros com ofertas de salários baixos, ou seja, mão-de-obra barata e mercados consumidores. Dessa forma, as empresas enriquecem às custas de nossas riquezas, tanto naturais quanto humanas como a nossa força de trabalho. Enriquecem e nos empobrecem, pois essa é a conhecida lógica básica do capitalismo, ou seja, crescer destruindo.
Essas mudanças pelas quais passamos atualmente e que afetam diretamente nossa vida, deixam cicatrizes e gostos amargos. O desemprego é uma lógica do crescimento do capitalismo, seu aspecto negativo e nossa cicatriz profunda, porque alguns crescem à custa de outros, destruindo o meio ambiente, a natureza e nosso trabalho. Atingindo milhões de pessoas, o desemprego gera um outro mundo, com gosto amargo: aquele da ocupação precária, informal, sem estabilidade, sem direitos. Cada vez mais, poucos trabalham muito e muitos são excluídos, vivendo à margem da sociedade, na informalidade ou, na pior das hipóteses, na violência e no crime.
Diante deste cenário deprimente, onde a perspectiva de futuro se apresenta de maneira negativa, como se já não houvesse esperança de algo melhor, diferente, temos que resgatar nossa auto-estima e lutar por alternativas possíveis. Precisamos de um governo que, com moralidade, represente os interesses da maioria e que com suas políticas atenda aos anseios da população, por cidadania e justiça, que já se organiza de modo cada vez mais eficaz, através do engajamento em sindicatos e de lutas sociais históricas. É a demonstração de que num país onde a fronteira entre a esquerda e a direita foi diluída, surgem novas formas de reivindicação de direitos e oportunidades.
Este é o contexto delicado e complexo para os trabalhadores, que suam diariamente para sobreviver com seus empregos garantidos ou com “biscates”. Num mundo cada vez mais individual, subjetivo, egoísta e descomprometido, a luta pela dignidade para enfrentar o desemprego e tudo que seus efeitos acarretam, está mais do que na ordem do dia! Trabalho digno é o que todo cidadão deseja.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

"A história é um palácio do qual não descobriremos toda a extensão (...) e do qual não podemos ver todas as alas ao mesmo tempo; assim não nos aborrecemos nunca nesse palácio em que estamos encerrados. Um espírito absoluto, que conhecesse seu geometral e que não tivesse nada mais para descobrir ou para descrever, se aborreceria nesse lugar. Esse palácio é, para nós, um verdadeiro labirinto; a ciência dá-nos fórmulas bem construídas que nos permitem encontrar saídas, mas que não nos fornecem a planta do prédio". Paul Veyne

Páginas da política brasileira

Quando se fala em política hoje, lembra-se logo da esfera institucional e, infelizmente, do cansaço e insatisfação da população frente à corrupção, à desmoralização e à violência desta política, ou melhor, politicagem. A fatalidade da democracia é a inércia, o conformismo e o desinteresse diante da penosa realidade política do país, uma vez que essa postura permite que a minoria interessada e interesseira nos governe.
O político não presta concurso, o cargo é eletivo e temporário, mas mesmo assim não se exige comprovante de competência profissional. Honestos e corruptos trilham a mesma rota há anos.
Desde os primórdios em que se estabeleceu a história ‘oficial’ desta terra chamada Brasil, a política segue seu rumo por caminhos angustiantes e tortuosos.
O comentador português Pero Vaz de Caminha já escrevia em 1500 que a terra de “tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”. O novo território era um paraíso para enriquecer alguns; inicialmente, portugueses; depois, ingleses; e por fim, norte-americanos. Nesse contexto de busca incontrolável por poder, riquezas e glórias, o povo, a sociedade brasileira em si, foi ganhando características culturais peculiares e ficando cada vez mais marginalizada.
A construção do Estado Nacional brasileiro foi marcado pela exclusão política da maioria, principalmente no que tange ao direito ao voto. As conquistas foram lentas, graduais. Quando enfim, nos anos 1990, retornou a vez da democracia, a esperança de política ética, como direito fundamental do ser humano, estusiasmava a todos.
Já há 15 anos, o primeiro presidente eleito pelo voto direto após a Ditadura Militar, Fernando Collor de Mello, sofria um processo de impeachment por motivo de escandalosa (e comprovada) corrupção. Todavia lembremos que o mesmo voltou em 2007 à vida política, como senador eleito por Alagoas.
De Collor à Lula, passando por FHC, houve apenas eleições, mudanças de governo, não houve alterações no sistema. O desemprego, a miséria, a fome, a precariedade da educação, da saúde continuam; já são marcas registradas da nação.
Um país-líder em desigualdade social, com uma massa de excluídos, continua sem representação política. Ainda esperamos um governo para o povo.
Bolsa família, um meio de alimentar os pobres do Brasil distribuindo renda, nada mais é do que a velha politicagem conhecida no país, baseada nos interesses pessoais, uma troca de ‘favores’ no estilo dos antigos coronéis, que trocavam, compravam e obrigavam o voto por um benefício mínimo qualquer.
A reeleição parece ser somente um meio possível de se continuar no poder, não um meio necessário para a continuidade de melhorias sociais. Existe uma acomodação de interesses, de políticas de toda ordem que fazem da vida pública uma profissão, um meio de melhorar a própria vida. Sem ética, princípios e projetos, o lema do mundo ocidental desde o século XVIII, “liberdade, igualdade e fraternidade” que, diga-se de passagem, nunca foi alcançado na plenitude, continua na irrelevância em nome do lucro individual.
No governo Lula, não é possível dizer que houve um significativo avanço na área social, uma vez que a política econômica não a tem como prioridade. As iniciais aspirações de Lula foram freadas pelo interesse de uma minoria. Projetos como os de Lênin em 1917, durante a Revolução Russa, que pregava “paz, terra e pão”, não se efetivaram até agora no Brasil.
A república, a res pública, a coisa pública, precisa ser governada com transparência e com compromisso com a humanização da sociedade, com a solidariedade e com a vida. Essa é uma proposta – política – de inclusão, representação e participação. Recursos públicos podem ser usados para favorecer a maioria e não para pagar contas privadas, atividades ilegais, mordomias, vantagens, ou mesmo criar cargos e desviar verbas para caixas extras.
O livro do Brasil está aberto, disponível para quem sabe ler... E que todos o leiam, começando pelo interesse em discutir a nossa política, para que, talvez no futuro, possamos escrever uma nova história.