quarta-feira, 18 de março de 2015

REGUERA, Andrea. Patrón de Estancias. Ramón Santamarina: una biografía de fortuna y poder en la Pampa

SÍNTESE DA OBRA
REGUERA, Andrea. Patrón de Estancias. Ramón Santamarina: una biografía de fortuna y poder en la Pampa

Síntese do Sumário
Primeira Parte
-Biografia Ramón Santamarina
- Nobre estancieiro; patrimônio territorial, família-empresa
-Segunda Parte
- Estância, empresa, análise estrutural, administração, mercado, comércio
- Terceira Parte

- Representação social, indivíduos, grupos, família, continuidade da propriedade.
Indíviduo – centro de análise sobre grupos socias. Biografia como pretexto exemplificador para interpretar o espaço-temporal (p.16)
Estudo de caso para problemas de História econômica e social
Recorte temporal / Contexto – Independência 1810 até crise 1930. Rio da Prata.
Objetivo: repensar mecanismos de constituição de um grupo (grandes proprietários – fins XIX)
Fontes: Arquivos privados, guias de propriedades rurais, mapas, cadastros, correspondências, livros de registros, diários, inventários.

Patrón de estanciaspatrón de medida (terras)
                                 - patrón de riqueza, prestígio e poder

Ramón Joaquim Manuel de Santamarina – imigrante galego
-Chegou Argentina 1840. Morreu em 1904 (suicídio)
- XIX: fase de expansão econômica para Argentina (terras, agricultura, gado)
- Inicialmente trabalhou como comerciante em Tandil (couro, transportes, ...)
-Forma patrimônio de 33 estâncias (quase 300 mil ha)
- 1860 casou com Ángela Alduncin Gaspui (5 filhos)
- 1866 esposa morre. Casa com sobrinha da falecida: Ana Irasusta Alduncin (13 filhos)
- Hoje: 7 gerações

Autora critica ‘mito’ de homem ‘self made man’, carreira ascendente, méritos próprios... Biografias que o apresentam como generoso, bondoso, com vocação ao trabalho.
No entanto...
... Não escapa muito dessa interpretação no seu trabalho... Também cai na ideia do ‘predestinado’.
Diz que Santamarina tinha/era:
‘homem com lógica empresarial’, ‘oportuno para negócios’, ‘empresarial’, ‘com capital de informação’, “informado do que se passa no mundo’; “hábil empresário’, ‘homem que foi em busca de oportunidades’
Jornais da época (início do XX) noticiavam a morte de Santamarina e atribuíam adjetivos ao rico estancieiro a partir de uma visão romântica (valores, virtudes)
-Virilidade
- fortaleza
-Perseverança
-Iniciativa
- triunfo
- riqueza

Santamarina
-Chegou em Tandil em 1844
- Começo da aquisição de terras ...
las compras se fueron haciendo según las oportunidades que brindaban el mercado’ (p.29) 
Segunda metade XIX
Valorização da terra; pois... Ampliação ferrovias, melhores comunicações, exportações, terras públicas com preço fixado pelo governo.

-1880  Santamarina instala-se em Buenos Aires
- 1890 , com 63 anos fundou a Sociedade Comercial Santamarina & Cia
- 1902 passou a se chamar Santamarina é hijos. Pais no comando, filhos como sócios. União necessária para ‘perpetuação do sangue e da prosperidade’
- 1904 morte Santamarina. Sociedade parcialmente liquidada.
- Aquisições: terras, casas, chácaras, estabelecimentos comerciais.
-Compras de terras - de particulares (50% do patrimônio) ou do governo, por preço baixo.
- Consolidação da estância – crescente demanda de produtos pecuários
Entre o governo de Juan Manuel de Rosas (1829) e Julio Roca (1904), o governo argentino deu ou vendeu mais de 32 milhões de ha.
Família – Empresa –
Santamarina (patron de estancias, pater familia)
Família – suporte de fortuna e poder econômico, prestígio social e poder político.
Após a morte de Santamarina – cada herdeiro se tornou patron de suas próprias estancias.
Organização produtiva:
-Estância – base riqueza nacional
               - unidade básica de organização econômica e social, caracterizada pela propriedade privada da terra.
Estâncias Santamarinabonivos, ovinos, couro, cereais
Exportação, grande criação, expansão econômica, frigoríficos,

 Administração estâncias – pequenas unidades
Sócio capitalista, sócio trabalhador
Estancieiro, chacareiro, peão

Administração -  centralizada
Homogeneidade organizacional
-Produção voltada ao mercado
- máximo aproveitamento dos recursos
Processo circular: criação de animais – esterco/fertilizante – terra/produção/cereais/pastagens/ração – alimentação dos animais

Empresa e Mercado
-Mercado interno e externo
- encontro de vendedores e compradores (feiras), transações comerciais...
Organização do trabalho
-Libros de trabajos diarios – atividades agrícolas, funcionamento, tarefas, controle de horários, qualidade do trabalho, estrutura hierárquica, salários (variáveis)
-Intenção: produzir o máximo possível
- Trabalhadores: uma parte imigrantes, homens solteiros de 13 a 60 anos

Representatividade social
Quantos Santamarina no mesmo contexto do pampa no XIX?
-Grupos sociais, construção histórica. Neste caso, elemento importante: propriedade da terra – grupo dos proprietários.
- Autora cita outros casos de proprietários – poder econômico, participação política (ligação com governo da Província), prestígio social.
- Homens ligados por vínculos de amizade, compadrio, clientelismo
Não apenas a propriedade da terra como elemento identitário do grupo, mas .... la referencia a uma historia familiar y a uma concepción de determinada façon de vivre es lo que los hacepertenecer’” (p.201)
Grupo proprietários: acesso à terra: comércio, política, trabalho, capital, pertença

Considerações finais
Santamarina foi um empresário
Aquele que transforma o indeterminado em multiplicidade de possibilidades (p. 223)
“hábil empresário”
“capacidade de negociação”
“informado do que se passa no mundo”

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Algumas caracterizações dos usos do passado

Helenice Rocha destacou algumas caracterizações dos usos do passado:
"A história acadêmica, produzida e voltada para os pares, os historiadores de ofício, em busca do conhecimento rigoroso; a história produzida para o grande público, sintonizada com o mercado cultural, buscando por meio de diferentes recursos da comunicação social a conexão entre o conhecimento histórico rigoroso e as diversas demandas sociais por entretenimento, conforto e cultura; (...) e uma última dimensão, não menos importante, da história escolar. Ela se dirige a um público específico, porém extenso, o dos alunos da escola brasileira, em busca da melhor comunicação de um conhecimento rigoroso".

(ROCHA, Helenice. A presença do passado na aula de HIstória. In: MAGALHÃES, Marcelo et.al. (orgs). Ensino de História: usos do passado, memória e mídia. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2014, p. 49).

domingo, 23 de novembro de 2014

BREVE RESENHA. Brasil de todos os santos.

VAIFAS, Ronaldo e SOUZA, Juliana Beatriz. Brasil de todos os santos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

O livro se propõe a analisar brevemente a multiplicidade de santos e crenças presentes no Brasil, desde a chegada dos portugueses, juntamente com as readaptações das manifestações devocionais (principalmente católicas) a partir do contato com diversas culturas. A expressão que dá título ao livro é inspirada na cidade sede do Governo Colonial, Salvador, “berço do primeiro bispado, terra dos primeiros missionários” (p. 09), terra de todos os santos. Santos estes, católicos, mas que envolvidos pelas várias culturas da colonização, traria pluralidade de santos múltiplos.
Os autores utilizam fontes primárias (processos inquisitoriais, relatos de viagens) a partir da bibliografia, com a finalidade de demonstrar os indícios de vivência da religiosidade e suas particularidades, com casos específicos, individuais, os quais muitas vezes não possuíam limites claros e definidos. Dentre as fontes estão os relatos, cartas e demais documentos da Companhia de Jesus, Ordem Religiosa que acompanhou a colonização portuguesa na América.
A presença da Companhia de Jesus, a serviço da Coroa portuguesa, marcou o período colonial no tocante à atuação junto aos indígenas na tentativa de conversão dos mesmos. Como um “Estado dentro do Estado”, a Cia. acumulou um vasto patrimônio. Os jesuítas desmereciam as crenças nativas, chamando os pajés de ‘feiticeiros’. Na tentativa de conversão e obtenção dos sacramentos, como batismo e matrimônio com um só cônjuge, os jesuítas abandonaram o latim e aprenderam o tupi, nascendo assim a língua-geral. As festas indígenas (com bailes, transes e embriaguez) foram chamadas por Nóbrega como santidade. Estas santidades indígenas se espalharam e foram descritas por cronistas e missionários. Eram rituais híbridos, fruto do trabalho missionário e da (re)interpretação da fé cristã pelos indígenas. Estes passaram a usar sementes para fazer rosários, usar fumaça com santos óleos para fazer batismos, multiplicando os santos ‘pelo avesso’ (p. 21).
No século XVIII, o Acotundá foi idolatria negra. Um ritual praticado em Minas Gerais, no qual os negros dançavam e veneravam um boneco. Para a Igreja, uma prática de pouco interesse e preocupação. No entanto, os Calundus, práticas de adivinhações, possessões, curas e batuques, incomodavam a Igreja. Para os autores, essas feitiçarias, ligadas a busca de melhora nas condições de vida, ganharam força pela conivência do baixo clero e pela falta de nitidez entre os limites do permitido e do condenado pela hierarquia. O Santo Ofício foi pouco rigoroso com estes, pois a escravidão ‘protegia’ os africanos.
Já os cristãos-novos, descendentes dos judeus convertidos, que vieram para o Brasil fugindo da Inquisição, foram vistos com preconceito e com suspeitas de manter o judaísmo na clandestinidade, apesar de batizados no catolicismo. A perseguição acabou por deixá-los divididos entre dois mundos: respeitar imagens e ritos católicos; ser fiel secretamente à herança judaica.
            A constatação da religiosidade colonial perpassa pelo desejo expresso de homens e mulheres em aproximar o máximo possível os santos de suas vidas cotidianas, humanizando-os. Sendo então o catolicismo muito mais vivenciado do que conceituado. Adornavam-se as imagens com jóias, capas, roupas, numa relação de afetividade. Tudo era acompanhado pelos santos, inclusive as intimidades amorosas. Eles estavam por toda parte: nos oratórios, capelas, bilhetes, orações, promessas.
            Os leigos mantiveram a crença católica muito através das irmandades religiosas, construindo igrejas, realizando missas, enterramentos, promovendo matrimônios, assistindo os desvalidos, e principalmente, fazendo festas. Eram nas festas, por exemplo, que os negros conseguiam fazer circular a forma como se viam e como viam a cultura que lhes tentavam impor. As ordens religiosas (exceto dos jesuítas) e a Inquisição no Brasil foram muito fracas.
            O catolicismo no Brasil teve plasticidade, marcado pela ‘exterioridade’, com devoção à base de imagens, procissões, espetáculos que incitavam a sensibilidade religiosa. Os efeitos visuais, os ornamentos, a iluminação, a pompa eram sempre reinventados, marcados pela mestiçagem cultural da Colônia.

Os autores chegam a afirmar ser o caráter do catolicismo brasileiro “epidérmico e superficial”, tendo no culto aos santos uma afeição “maior ao externo, à imagem do que a coisa figurada, do que ao espiritual” (p. 50). Contraditoriamente, no final da obra dizem que as festas religiosas podiam exercitar a piedade e serem momentos de transgressão, sem excluir um e outro, ressaltando ainda a “força” da religiosidade popular. Sem fazer uma apologia das devoções populares e a veneração dos vários santos de diferentes maneiras é possível dizer que esses modos diversos de expressar a devoção é sintoma de forte religiosidade, profunda e verdadeiramente sentida, e não, superficial, apenas porque não-oficial. Afinal, dentro da própria divergência constatada na obra, os autores afirmam: “Se a instituição permaneceu frágil (...) não se pode dizer o mesmo de nossa religiosidade. [...] Seja como for, não se poderá negar sua força” (p. 64).

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Porto Alegre no final do século XIX

No final do século XIX a cidade de Porto Alegre crescia vertiginosamente. Tal crescimento era urbano, demográfico, industrial e cultural. Segundo Sérgio Franco, houve um "ciclo de crescimento industrial a partir de 1890, acompanhado do ingresso de numerosos imigrantes", quando "a cidade marcou passo, tanto no aspecto demográfico quanto no perfil urbanístico".
(Gente e espaços de Porto Alegre. Porto Alegre: EdUFRGS,2000, p.55)
Em 1892 Porto Alegre atingia 46.500 habitantes. Nesta época, além de alemãos, italianos, muitos portugueses embarcavam diariamente para o Brasil. Entre tantos, vale citar a família "Postiga" que buscou fazer fortuna no Brasil. Neste ano, a cidade era palco de agitações políticas...no ano seguinte assistia-se a Revolução Federalista. A estatística predial de 1892 apontavam a rua Voluntários da Pátria como possuindo 58 sobrados, ficando atrás apenas das ruas Marechal Floriano (64) e dos Andradas (155).
É justamente um dos prédios da Rua Voluntários da Pátria que mostramos na imagem abaixo. Trata-se da "Companhia Fábrica de Móveis" inaugurada em 22 de fevereiro de 1892. A imagem faz parte da ilustração dos recibos da fábrica, de 1904, e vem assinada por João Ferreira Pacheco.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Independências da América Espanhola foram um processo revolucionário?

Segue uma síntese da introdução do livro:
GUERRA, François-Xavier. Modernidad e Independencias. Ensayos sobre las revoluciones hispánicas. México: Editorial Mpfre, 1992.

Introdução – Un proceso revolucionario único

Para o autor, as independências hispanoamericanas devem ser tratadas como um processo único, cujo entendimento deve ser localizado em três problemáticas:
Primeiro, o caráter global do processo, já que a Revolução Liberal espanhola estava imbricada com as Independências hispanoamericanas.
Segundo, trata da natureza desse processo independentista que deve ser encarado como um processo revolucionário. Pensar em revolução é problemático pois muitos consideram apenas a indicação de transformações estruturais ou como um fenômeno meramente político.
A comparação com a Revolução Francesa a tal ponto de reduzir as revoluções hispanoamericanas a trocas institucionais, sociais e ecnonômicas não serve mais. O autor mostra por que as independências são, sim, revoluções, destacando outros aspectos, também revolucionários: a consciência dos atores, a abordagem de uma “nova era”, de um “homem novo” e uma “nova sociedade e uma nova política”. (p. 13)
O novo é a criação de uma cena pública, quando as referências privadas se tornam públicas. Essas mudanças são chamadas de modernidade, uma ruptura profunda e irreversível.
No processo revolucionário, a identidade não é econômica, mas sim, de pertencimento cultural. A dimensão sócio-econômica é importante, mas o autor não se propõe a tratar desse aspecto. O autor deseja abordar os códigos culturais do conjunto de grupos sociais. Um vasto campo de estudo, ao considerar o imaginário social, os valores, os comportamentos.
Terceiro problema, diz respeito a relação entre a revolução hispânica e a Revolução Francesa, cujo lapso temporal é de apenas 20 anos. A importância da Revolução Francesa é destacada não apenas como uma nova política para a Europa, mas como um fenômeno social e cultural tão novo que dominou o debate político da época. A Independência é filha da Revolução Francesa e conseqüência da difusão, na América, dos seus princípios.
A tarefa do historiador, aponta Guerra, captar e medir, geográfica e socialmente, a inevitável heterogeneidade cultural.
O que todas as regiões da América tem em comum é seu pertencimento a um mesmo conjunto político e cultural. As causalidades primeiras são buscadas nos campos do político e do cultural.
O autor trabalha com o “tempo longo” e o “tempo curto”, a longa e a pequena duração, pois os acontecimentos do tempo curto, como as rupturas, modificam as situações políticas no tempo longo, detendo-se no período dos anos 1808-1810, em seus acontecimentos que levariam a ruptura, naquele momento ainda não consolidada, mas irreversível.

sábado, 2 de outubro de 2010

Micro-história: a redução da escala na análise historiográfica

Desde os anos 1970, um novo gênero historiográfico, particularmente italiano, mudou os rumos do fazer história e alterou a escala de observação na pesquisa histórica: a micro-história, basicamente em seu início com os historiadores Carlo Ginzburg, Giovanni Levi e Edoardo Grendi.
A micro-história se propõe a uma redução de escala de análise, uma descrição da “realidade social” mais detalhada e uma maior exploração do objeto de estudo. A redução da escala permitiu, por um lado, que as experiências individuais, concretas e locais ganhassem relevo e relação com o global. Segundo Paul-André Rosental a pretensão da micro-história é “chegar a conclusões historiográficas de alcance geral”, já que o método pretende estabelecer uma rede de relações, articulando o micro e o global. Com múltiplos ângulos de abordagem sobre realidades até mesmo contraditórias pode-se produzir conhecimentos novos, já que se refletem na narrativa do historiador, que passa a descobrir novos contornos aos seus objetos e a perceber as descontinuidades que as mudanças de escala provocam na narração .
O surgimento da micro-história foi, em grande medida, uma reação ao estilo de história produzida até então: econômica, marxista e estruturalista. Ela recebeu influência da historiografia social francesa e do neo-marxismo inglês, indo ao encontro da antropologia, pensando a cultura e a carga simbólica das práticas e representações sociais. Henrique Espada Lima ressaltou que a inflexão em sentido antropológico da história social vinha se consolidado entre os anos setenta e oitenta e acontecia justamente em direção à antropologia cultural e simbólica, influenciando muitos estudos e historiadores. A antropologia simbólica e interpretativa, baseada nas representações, esteve e está próxima da micro-história. Geertz, com seu método de descrição densa demonstrou como observar detalhes e perceber seus significados, aprofundando a análise do objeto, com suas várias possibilidades de interpretação. Essa problemática da linguagem e da representação é, por exemplo, para Grendi, um elemento decisivo para a experiência historiográfica, abrindo a possibilidade de reconstruir uma cultura por meio do inventário das práticas sociais .
A grande proposta dos princípios metodológicos microhistóricos é a redução da escala de observação, de modo a intensificar a exploração do objeto, fazendo assim uma outra leitura do social. Em outras palavras, partir de um indício, um detalhe específico para responder questões gerais e de interesse amplo na sociedade pesquisada. Para Jacques Revel, é o princípio da variação [de escala] que conta, e não a escolha de uma determinada escala, de modo que a dimensão ‘micro’ não seja privilegiada . Simona Cerutti destacou ser a microanálise uma análise processual, que considera os indivíduos como protagonistas de tal modo a reconstituir uma vivência ou uma variedade de experiências nos diferentes campos da vida social. São escolhas dos itinerários individuais, levando em conta as representações que esses mesmos sujeitos escolhiam e davam a si mesmos . Giovanni Levi, ícone da micro-história, destacou que “é por meio de diferenças mínimas nos comportamentos cotidianos que são construídas a complexidade social, as diferenciações locais nas quais se enraízam histórias” .
A micro-história optou por situações vividas, redes de relações, estratégias singulares. Conforme Roger Chartier “cada micro-história pretende reconstruir, a partir de uma situação particular, normal porque excepcional, a maneira como os indivíduos produzem o mundo social, por meio de suas alianças e confrontos, através das dependências que os ligam ou dos conflitos que os opõem” .
Desde seu início, a micro-história possui um duplo caráter, de acordo com Grendi:

“Ela traduz, de um lado, uma atenção continuada às condições teóricas dos procedimentos da pesquisa em história, por analogia com os esquemas operacionais da antropologia social; ela induz portanto uma atenção particular às modalidades da demonstração. Ela está, de outro lado, associada a abordagens e a técnicas que foram elaboradas em outros contextos (...), por exemplo, a atenção dada aos ‘episódios ilustrativos’, aos ‘estudos de caso’, cuja importância analítica é certa mas remete a outras matrizes, a outros paradigmas historiográficos” .

Com Ginzburg, o conhecimento histórico valeu-se de metodologias que valorizam o indiciário, o conjetural, na tentativa de decifrar uma realidade. Esse é o chamado método indiciário. Nessa perspectiva, a imaginação é um esforço e uma necessidade do historiador que se aventura na micro-análise. À técnica de pesquisa combina-se a intuição, a observação minuciosa, a flexibilidade e sensibilidade do historiador. O enfoque de Ginzburg, partia da “análise do episódio e do detalhe significativo” pretendendo “reconstruir um contexto de natureza histórico-cultural inacessível de outra forma” . O próprio Ginzburg em prefácio à edição inglesa de seu O queijo e os Vermes destacou os detalhes que a pesquisa documental e a abordagem micro da vida de Menocchio poderiam revelar: “temos condições de saber quais eram suas leituras e discussões, pensamentos e sentimentos: temores, esperanças, ironias, raivas, desesperos” .
A historiadora Sandra Pesavento sintetisou a micro-história como:

“um método ou estratégia de abordagem do empírico, que implica o uso conjugado de dois procedimentos: redução de escala do recorte realizado pelo historiador no tema, transformado em objeto pela pergunta formulada, e ampliação das possibilidades de interpretação, pela intensificação dos cruzamentos possíveis, intra e extratexto, a serem feitos naquele recorte determinado”

Duas correntes – social e cultural – de análise microhistórica predominaram entre os italianos. Giovanni Levi, mais preocupado com o aspecto social e também econômico, fez aparecer em seus trabalhos s regularidades nos comportamentos coletivos de um determinado grupo social, sem perder a singularidade de cada um . Nas palavras do próprio Levi, “é por meio de diferenças mínimas nos comportamentos cotidianos que são construídas a complexidade social, as diferenciações locais nas quais se enraízam histórias”. Para Levi, a análise minuciosa / micro dá-se, em grande parte, devido à constatação dos perigos de generalização que uma visão global pode causar, a ponto de falsear, iludir e apresentar interpretações simplistas do social . Mesmo assim, Levi admite que nem todo problema histórico ganhe ao ser trabalhado na perspectiva micro e que a escolha da escala de observação implica escolher um instrumento analítico que não é neutro. Em seu artigo sobre consumo antes da Revolução Industrial, destacou a necessidade de mensurar a desigualdade não apenas por uma “oposição estática entre ricos e pobres”, mas por meio de uma avaliação dos níveis de renda de modo como foi percebida pelos atores sociais.
Edoardo Grendi foi outro historiador italiano, ícone da análise micro-analítica, que procurou em seu trabalho articular, segundo Henrique Espada Lima, dois eixos complementares, a saber, sociedade e cultura, apontando para o diálogo entre a história social e a antropologia . Foi Grendi quem introduziu a noção do ‘excepcional normal’, tendo, segundo Pesavento, dois significados: “o do registro só aparentemente excepcional, mas que constitui uma prática vulgar na cotidianidade da vida” ou “de que justamente o excepcional, a transgressão, a marginalidade e o desvio podem dar conta da norma” . Nos estudos de Grendi, “espaço e escala eram temas de fundamental importância”, e ainda as ‘formas de integração’ entre “as diferentes esferas tornava-se central na análise” . Em outras palavras, pode-se dizer que Grendi variava as escalas em suas análises do social, não apenas fazendo a redução dessa análise. Para Grendi havia analogia entre a microanálise histórica e a pesquisa de campo antropológica e o cruzamento de fontes que testemunhavam as relações sociais acabavam sendo fundamentais para essa possibilidade analítica. Os documentos indiretos e/ou excepcionais, deveriam “ser colocado a serviço da compreensão do cotidiano ‘normal’ das relações correntes” . O próprio Grendi observou que a proposição microanalítica ia ao encontro da ‘história vista de baixo’, buscando um sujeito no emaranhado de fontes para a ‘reconstrução do vivido’ .
Levi, Ginzburg e Grendi se aproximaram; no entanto, a micro-história não se constituiu enquanto escola, nem disciplina, mas sim enquanto prática dos historiadores e experiências de pesquisa. Ela reformulou procedimentos e concepções, reduzindo a escala, transformando as representações da sociedade, mais atentos aos indivíduos e suas relações sociais. Em A herança Imaterial, Giovanni Levi buscou, por exemplo, traçar biografias dos habitantes da aldeia Santena para descortinar as estratégias sociais desenvolvidas pelos indivíduos e pelas famílias. Para Levi, “no curso da vida de cada um, de uma maneira cíclica, nascem problemas, incertezas, escolhas, uma política da vida cotidiana que tem seu centro na utilização estratégica das regras sociais” .
São muitas as demonstrações de potencialidades da micro-história a partir de trabalhos de historiadores que consagraram seus estudos, enriquecendo a análise social, “tornando suas variáveis mais numerosas, mais complexas e também mais móveis” . No entanto, é pertinente destacar as críticas realizadas, ou talvez de modo mais pertinente dizer, os riscos a serem enfrentados diante da análise micro, que fazem refletir sobre os cuidados a serem tomados. Sandra Pesavento destacou o cuidado necessário com os indícios para a configuração da narrativa histórica, já que o historiador pode se encontrar diante de ‘elos perdidos’ e lacunas impossíveis de serem preenchidas, logo, haveria impossibilidade de construção de uma inteligibilidade. Outro risco é o excesso interpretativo ao transformar indícios em provas, sem considerar o contexto “exterior à documentação pesquisada” . O historiador Ronaldo Vaifas também destacou o perigo de se transformar um caso extremo ou situação-limite em exemplos típicos, o que seria um caminho de extrema subjetividade, quase ficção . Como disse Pesavento, “só o olhar atento e acurado que vê na contravenção, a norma, ou na declaração da virtude, a existência do pecado” .
Destacados os ricos da perspectiva micro-histórica levada ao extremo, é preciso retomar a interpretação de que nenhuma escala de análise possui um privilégio especial, para dizer, conforme Lepetit, que os fenômenos não são menos ou mais reais, pois de fato não há uma hierarquia .

“A micro-história não rejeitou portanto a história geral, mas introduz a ela, tomando o cuidado de distinguir os níveis de interpretação: o da situação vivida pelos atores, o das imagens e símbolos que eles acionam, conscientemente ou não, para se explicar e se justificar, o das condições históricas da existência dessas pessoas na época em que seus discursos e comportamentos foram observados” .

Estabelecer relações, trabalhar as fontes de maneira intensiva, comparar a documentação, cruzar informações, dados, variar a escala de observação, valorizar as auto-representações, atribuir significados diferentes e teorizar para um mesmo universo cultural – seguindo as contribuições da Antropologia interpretativa - , mostrar o papel das idéias e das sensibilidades individuais e coletivas em suas singularidades. Correndo o risco da simplificação, pode-se dizer que essas, entre tantas outras, têm sido a lição e contribuição da micro-história para os trabalhos e pesquisas que se afirmam no saber histórico contemporâneo.

ROSENTAL, Paul-André. Construir o ‘macro’ pelo ‘micro’: Fredrik Barth e a ‘microstoria’. In: REVEL, Jacques (org.). Jogos de escala. A experiência da microanálise. Rio de Janeiro: EdFGV, 1998, p. 152.
LIMA, Henrique Espada. A micro-história italiana: escalas, indícios e singularidades, p. 206.
GRENDI, Edoardo. Repensar a micro-história. In: REVEL, Jacques. Jogos de escalas, p. 256.
REVEL, Jacques. Micro análise e construção social. In. Jogos de escalas. A experiência da microanálise. Rio de Janeiro: EdFGV, 1998, p. 20.
CERUTTI, Simona. Processo e experiência: indivíduos, grupos e identidades em Turim no século XVII. In. REVEL, Jacques. Jogos de escalas, p. 174.
LEVI, Giovanni. Antes da ‘revolução’ do consumo. In: REVEL, Jacques. Jogos de escalas, p. 205.
CHARTIER, Roger. À beira da falésia. A história entre certezas e inquietudes. Porto Alegre: Edurgs, 20022, p. 95.
GRENDI, Edoardo. Repensar a micro-história? In: REVEL, Jacques. Jogos de escalas, p. 259.
Id. Ibid., p. 208.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os Vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 12.
PESAVENTO, Sandra. O corpo e a alma do mundo. A micro-história e a construção do passado. História Unisinos, vol. 8, n. 10, jul/dez, 2004, p. 180.
Ver em REVEL, Jacques. Microanálise e construção do social, p. 34.
LEVI, Giovanni. Comportamentos, recursos, processos: antes da ‘revolução’ do consumo. In: REVEL, Jacques, p. 203-205.
LIMA, Henrique Espada. A micro-história italiana: escalas, indícios e singularidades, p. 172.
PESAVENTO, Sandra. Op. Cit., p. 182.
LIMA, Henrique Espada. Op. Cit., p. 195.
Id. Ibid., p. 198.
GRENDI, Edoardo. Repensar a micro-história? In: REVEL, Jacques (org.). Jogos de escalas., p. 253.
LEVI, Giovanni. A herança imaterial.
REVEL, Jacques. Microanálise e construção do social, p. 23.
PESAVENTO, Sandra. Esta história que chamam micro. In: Questões de teoria e metodologia da história. Porto Alegre: Edurgs, 2000, p. 228-229.
VAIFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da história. Micro-história. Rio de Janeiro, Campus, 2002, p. 149.
PESAVENTO, Sandra. Esta história...p. 229.
LEPETIT, Bernard. Sobre a escola na história. In: REVEL, Jacques. Jogos de escalas, p. 100.
BENSA, Alban. Da micro-história a uma antropologia crítica. In: REVEL, Jacques. Jogos de escalas, p. 44.

domingo, 11 de janeiro de 2009

São Jorge: venerado guerreiro




No Brasil, ele está presente nos altares das igrejas, nos gongás da umbanda, nos nichos domésticos, na fachada de lojas, no interior de oficinas mecânicas.
São Jorge conquistou os corações dos reis portugueses, de seus súditos mais humildes e fez com eles a travessia do Atlântico. É santo oficial do catolicismo.
A veneração ao "santo guerreiro" no Brasil é uma das mais arraigadas heranças portuguesas, pois o culto dos reis de Portugal a São Jorge teve início com a fundação do reino.
O santo foi tomado como intercessor celeste na batalha pela coroa lusitana, que opôs Portugal e Catela. Na batalha de Aljubarrota, em 1385, d. João I avançou sobre os castelhanos gritando: 'Avante, São Jorge, São Jorge avante, que eu sou o rei de Portugal!'. Para celebrar a vitória, o monarca fez de São Jorge o padroeiro do reino, defensor de suas terras e gentes, e deu à fortaleza que havia construído, em Lisboa, o nome de Castelo de São Jorge.
Em 1387 houve a introdução do santo na procissão do Corpo de Deus, a grande responsável pela transformação do mártir numa entidade popular. Realizada em todo o Portugal, a procissão em honra à Eucaristia era a festa mais importante da Igreja local. A passagem de São Jorge era escoltada pelos artesãos que lidavam com ferro e fogo.
A devoção a São Jorge transformou-se numa tradição no além-mar. Em 1549 se fez a primeira procissão do Corpo de Deus na Bahia. Nos séculos XVII e XVIII, os viajantes anotavam suas impressões, achando ridícula a figura de São Jorge sobre um cavalo nas festas religiosas coloniais.
O santo saía na procissão baiana sobre um cavalo ricamente adornado, escoltado por seu pajem, por seu alferes, ‘o popular homem de ferro’, e por cavalariços vistosamente trajados. Em Minas Gerais do século XVIII, à véspera da procissão, os criados de São Jorge saíam à noite vestidos de capa e calção vermelhos, rufando tambores, anunciando o cortejo pelas ruas, com pompa, ao som de banda e estouro de fogos.
A figura de São Jorge desfilava com armadura, escudo, elmo com ornamentos dourados e capa de veludo bordada a ouro.
Se São Jorge supria a demanda dos reis e dos exércitos, ajudando-os na glória e nas conquistas, no meio do povo logo se tornou advogado das causas cotidianas, com a ajuda dos orixás. No Brasil, assumiu desafios como os de Ogum e os de Oxossi nos cultos afro-brasileiros. Foi o processo cultural de identificação e associação que caracterizou o sincretismo religioso.
Santos e orixás se aproximavam, como intermediários entre os homens e o Criador, ou, em outras palavras, entre homens e Olorum.
O combate entre o santo e o dragão circulava nas imagens votivas.

São Jorge sincretizou com Ogum nas casas de santo do Recife, de Porto Alegre e do Rio de Janeiro. Ogum, rei ioruba que inventava suas próprias armas e ferramentas, guerreiro invencível, em sua dança agitando a espada como se fosse golpear um inimigo ou abrir os caminhos. Reza a tradição que ele o fez: ensinou os homens a dominar o fogo e a fabricar os utensílios de ferro.
Como eram reprimidos pela Igreja e até mesmo pela polícia, os cultos afro-brasileiros encontraram na devoção aos santos um abrigo.
A devoção à São Jorge é muito popular até os dias de hoje. Seu dia é 23 de abril. Presente no imaginário popular, o santo encontrou defensores devotos e poetas. Caetano Veloso compôs Lua de São Jorge e Mário Quintana perguntava-se: ‘que culpa tem ele de ser tão belo e ecumênico?’



(Texto extraído e adapatado de: SANTOS, Georgina Silva dos. "Venerado guerreiro". In: Nossa História. ano 1, n. 7. Biblioteca Nacional (ed.). São Paulo: Vera Cruz, 2004. pp. 14-20).

domingo, 14 de dezembro de 2008

As promessas de Obama

A lista de 10 promessas de campanha indica temas globais e que marcam diferenças nítidas com a gestão Bush:
1. Reduzir as emissões de carbono dos EUA em até 80% até 2050 e ter um papel mais forte e positivo na negociação do tratado global que irá dar continuidade ao Protocolo de Quioto
2. Retirar todas as tropas do Iraque dentro de 16 meses e não manter nenhuma base permanente no país
3. Estabelecer uma meta clara para eliminar todo o armamento nuclear do planeta
4. Fechar o presídio de Guantánamo
5. Dobrar o apoio financeiro para reduzir pela metade a extrema pobreza até 2050 e contribuir para a luta contra o HIV/AIDS, a tuberculose e a malária
6. Abrir um diálogo diplomático com países como o Irã e a Síria para buscar uma solução pacífica para tensões políticas
7. Desmilitarizar o serviço norte-americano de inteligência para evitar o tipo de manipulação que gerou a guerra no Iraque
8. Lançar um grande esforço diplomático para cessar a matança em Darfur
9. Somente negociar novos tratados comerciais que contenham proteções trabalhistas e ambientais para os países envolvidos
10. Investir USD $ 150 bilhões nos próximos 10 anos em energias renováveis e colocar 1 milhão de carros elétricos nas ruas até 2015

(RICCI, Rudá. A América de Obama. Revista Espaço Acadêmico. www.espacoacademico.com.br)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

100 anos de Umbanda. Comemoração em São Leopoldo

Uma religião brasileira, híbrida, mestiça como o povo, a Umbanda é resultado do encontro de tradições religiosas diversas, como a indígena brasileira, o espírita francês e a ancestralidade africana, e é hoje muito identificada com a matriz afro-brasileira. No entanto, ainda é alvo de discriminação e preconceito de muitos.
Surgida em 1908, no Rio de Janeiro, a Umbanda completa seus 100 anos com muito orgulho. Prova disso foram as comemorações em diversas cidades brasileiras, mas nem sempre devidamente reconhecidas, divulgadas e veiculadas pela mídia.
Em São Leopoldo, houve uma bonita programação no dia 15 de novembro, sábado. Ao lado da Câmara de Vereadores, os umbandistas se concentraram, mostraram um simbólico congá, ouviram o hino da Umbanda, fizeram pronunciamentos... À tarde, uma passeata pela principal rua da cidade.
Ao montarem o Congá, os umbandistas abriram mão de uma entidade importante do seu panteão (entre suas falanges e legiões), o Exu, justamente aquele que vem primeiro no culto, responsável pela comunicação, pelos caminhos, pela rua. Por que a exclusão do Exu? Porque a população não estaria ‘preparada’ para apreciar tal imagem, ainda associada - no imaginário daqueles que desconhecem e julgam - como um ‘satã’ cristão. Os organizadores tentaram evitar, assim, qualquer manifestação de discriminação e pré-conceito ainda tão predominantes em nossa sociedade. Lamentável!
No entanto, nada apagou o brilho da comemoração. Eis algumas fotografias:



















quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Irmandades religiosas no Brasil

As irmandades eram associações do meio urbano, organizadas por leigos católicos, fiéis que se dedicavam ao culto a um padroeiro, podendo ser um santo ou uma invocação à Virgem e a Jesus. Possuíam objetivos de ajuda mútua e praticavam obras de caridade. Os leigos que formavam as irmandades eram pessoas não ligadas ao clero, por exemplo, não eram jesuítas. As irmandades construíam suas próprias igrejas ou dividiam espaço em altares laterais com outras irmandades. O maior compromisso das irmandades com seus sócios era oferecer um funeral digno.
As irmandades davam importância as categorias raciais e sociais, e tinham um caráter étnico. Existiam irmandades só dos homens brancos de elite, como a do Santíssimo Sacramento, e havia aquelas só de escravos, como a Irmandade Nossa Senhora do Rosário.
Os principais hospitais eram construídos e administrados pela importante irmandade branca: Santa Casa de Misericórdia.

As irmandades religiosas ofereciam às pessoas que fosses seus membros benefícios espirituais e materiais. Os benefícios espirituais eram as missas e rezas pelos irmãos mortos e vivos, missas para a salvação das almas, “proteção” do santo padroeiro, acompanhamento em grande estilo ao enterro, procissões, etc. Os benefícios materiais eram o auxílio para a doença ou enterro (caixão, mortalha), atendimento médico e remédios, oferecimento de catacumbas, auxílio para educação de órfãos, ajuda aos que caíssem na miséria ou mesmo na prisão, etc.
Os escravos e os pobres associavam-se à irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Com isso os escravos e forros conseguiam um status social, apesar da escravidão. Os negros buscavam proteção contra os rigores da escravidão. Muitas vezes, as irmandades do Rosário, juntavam dinheiro e ajudavam os escravos a conseguir a liberdade, embora existam poucos casos registrados.
Todos os anos, as irmandades organizavam festividades ao santo de devoção. Nessas festas, as irmandades promoviam procissões, quermesses, badaladas de sinos, decoração das ruas e igrejas. Saíam pelas ruas das cidades acompanhadas de seus membros, muitas vezes com bandas de música, tochas e muitos fogos de artifício. Homens e mulheres, alegres, faziam suas preces. Era um carnaval de fé.
As festividades das irmandades revelavam a riqueza da sociedade, mas também as desigualdades. O luxo das igrejas contrastava com a extrema pobreza das casas do povo, que preferia doar tudo para a irmandade ou para a igreja.
Para os escravos, a festa era um dia de interrupção do trabalho forçado. Permitia aliviar os sofrimentos do cativeiro e encontrar seus semelhantes. Os escravos aproveitavam para expressar sua cultura, promovendo batuques e danças de tradição africana.